22 julho 2009

Uma Encíclica que irrita

«Caridade na Verdade» é um texto altamente irritante. É isso mesmo: um manual para o desassossego

Lembro-me muitas vezes da banda-desenhada cheia de humor de Quino, em que a irrequieta e incisiva Mafalda está com um ar abstracto e imperscrutável e diz que está a parecer-se com uma Encíclica Papal.
É uma forma engraçada de pôr o dedo na ferida, pois o grande risco é, de facto, o da recepção "abstracta e imperscrutável"que fazemos de textos que são afinal de uma impressionante concretude, agudeza e profecia.

Por vezes sinto que fazemos das "Encíclicas Papais" um género literário, altamente respeitável, mas inofensivo. A vida continua a correr com o pragmatismo do costume, indiferente quanto baste ao horizonte ideal que a tradição cristã nos aponta.

Talvez por isso, me apeteça saudar um pequeno texto de Henrique Raposo, que me incomodou muito, mas que, não posso negar, me tornou mais atento no acolhimento da Encíclica ("Expresso" (11/07/2009).

Diz o seguinte: «Não tenho problemas com o Papa, e até gosto de católicos. Mas há uma coisa que me irrita no Papa: é quando ele se põe a trazer Marx para o Evangelho. Aquilo que o Papa tem dito sobre a - suposta - falta de ética do capitalismo não ficaria mal na colectânea dos Summer hits de Francisco Louçã. Não vou aqui desconstruir a falácia antiliberal que está presente na Igreja Católica. Deixo somente uma pergunta: no "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" qual é a parte que o Papa não entende?».

É evidente que este autor entende muito pouco do cristianismo. Em vez de Marx, ele deveria perceber que o Papa liga-se à tradição bíblica e Evangélica mais genuínas, aos Padres da Igreja e a todo o extraordinário património de pensamento e acção no campo da solidariedade humana de que a Doutrina Social da Igreja tem sido esteio. Mas numa coisa Henrique Raposo tem razão: Bento XVI irrita e esta sua encíclica, "Caridade na Verdade" é um texto altamente irritante. É isso mesmo: um manual para o desassossego.

José Tolentino Mendonça

1 Comentários:

Às 22 de julho de 2009 às 15:47 , Blogger BlogsEcclesia disse...

A globalização do Papa
José Tolentino Mendonça (JTM) confessou o seu incómodo com a minha crónica da semana passada. Nessa crónica, eu ironizei sobre as semelhanças entre Bento XVI e Marx. Confesso que fui leviano. Agi como um guerrilheiro desonesto: cheguei, bati e fugi. Num puxão de orelhas merecido, JTM, na Agência Ecclesia, afirmou que percebo muito pouco do cristianismo. Embora anteveja outra tareia teológica, atrevo-me a ripostar.
Começo a minha defesa alegando o seguinte: eu não estava a analisar o Papa; eu estava a gozar com o Papa. É claro que a encíclica "Caritas in Veritate", como diz JTM, não está ligada ao marxismo mas sim à doutrina social da Igreja. Isso é uma evidência. O meu (cínico) ponto era outro. A minha farpa queria atingir outra evidência: na hora de diabolizar a globalização, católicos e esquerdistas passam de inimigos figadais a amigos íntimos. Há dias, em Fátima, um cardeal mui sul-americano (e mui vermelho) destilou todos os clichês do livro de estilo marxista: "a mão invisível que supostamente teria que guiar o mercado tornou-se uma mão desonesta e cheia de cobiça", proclamou o tal cardeal das Caraíbas. Lamento, mas estes 'padres de passeata' estão ao nível (rasteiro) de Francisco Louçã. Como cafajeste liberal que sou, não posso deixar de notar estas semelhanças entre o Reino dos Céus e o Reino da Revolução. A minha ruindade libertária é mais forte do que a minha escassa caridade.
A própria "Caritas in Veritate" é um texto onde existem pontos de contacto entre Bento XVI e a esquerda. Aliás, a lista de 'esquerdices' do Papa Bento XVI é tão longa como o ego do intelectual Joseph Ratzinger: a globalização atacou o Estado, o Estado recupera agora o seu lugar cimeiro de controleiro do mercado, as deslocalizações de empresas são negativas, a globalização ameaça o sindicalismo, etc. Se não soubesse que este texto era da autoria do Papa, Manuel Alegre citá-lo-ia nos seus sobressaltos socialistas.
Atenção, não estou a dizer que a Igreja e a esquerda são iguais eticamente. Estou apenas a constatar que, analiticamente, a Igreja e a esquerda são parecidas em certos pontos. Quer isto dizer que a Igreja e a esquerda partilham certas percepções - empiricamente erradas - da realidade. Isso é evidente na forma como Bento XVI percepciona a globalização. A partir do trono de Pedro, Bento XVI declara que é preciso corrigir as disfunções da globalização "e fazer com que a redistribuição da riqueza não se verifique à custa de uma redistribuição da pobreza ou, até, com o seu agravamento". Ao ler isto, fiquei com a impressão de que Boaventura Sousa Santos é o ghostwriter de Bento XVI. Porquê? Porque o Papa aceita aqui a tese neomarxista, ou seja, considera que a globalização enriquece o Ocidente às custas do 'resto do mundo'.
Eu não estava à espera que a Igreja actuasse como paladina do liberalismo, o calvinismo desnatado. Porém, esperava que a Igreja conhecesse melhor a realidade empírica sobre a qual disserta. A globalização, caríssimo Ratzinger, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza no 'resto do mundo'. Ao contrário do que diz a "Caritas in Veritate", a globalização diminuiu as desigualdades entre ricos e pobres. Tal como a esquerda, Bento XVI tem dificuldades em aceitar este facto, porque coloca a sua ideologia - a caridade - à frente da realidade. Mas isso já é tema para outra conversa.

Henrique Raposo
In Semanário “Expresso” 21 de Julho de 2009

 

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